Caminhar sempre pelas mesmas ruas, onde passam sempre as mesmas caras. Percorrer os mesmos passos do dia anterior, seguindo as marcas já lá deixadas antes. Repetir os mesmos gestos, dizer as mesmas frases… Nunca nada muda. Ou talvez mude, imperceptivelmente, para pior.
O tempo em nada ajuda, apenas aproxima a certeza de um fim. Esse fim que todos esperam, alguns temem e outros tentam a todo o custo evitar… mas que ninguém conhece nem sabe como será.
Uma pessoa nasce e morre, nisso somos todos iguais. O que nos torna diferentes é o que nos acontece no intervalo de tempo que decorre entre os dois acontecimentos. Para uns tudo corre bem, para outros nem por isso. Umas vezes é possível dar uma mão ao destino e tentar corrigir o que está mal, outras vezes o destino é teimoso… e não conseguimos encontrar força para o contrariar… ainda que isso seja o que mais queremos.
Arquivo de Abril, 2008
Vazio
Publicado por GFilipeB em 30/Abril/2008
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Now
Publicado por GFilipeB em 29/Abril/2008
Senseless words
Unfinished stories
Nothing to do
Antything to think of (or, at least, that I want to)
Dark colours
Unending lazyness
Nothing on TV
Smoke
Ashes
Me, at this time…
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E se a mente humana…
Publicado por GFilipeB em 28/Abril/2008
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A Falésia
Publicado por GFilipeB em 27/Abril/2008
17 de Novembro de 1997
O Sol já tinha desaparecido há algum tempo. As luzes da rua começavam a acender. O vento soprava, frio e húmido, arrastando consigo folhas e papéis velhos. Uma tempestade preparava-se, a qualquer momento, para se despenhar sobre a cidade.
Rute, após um longo dia de trabalho, saiu do carro e encaminhou-se para sua casa. Meteu a chave à fechadura, entrou e deitou a mão ao interruptor da sala. No momento em que a luz se acendeu ouviu-se um pequeno estalido e a sala voltou a ficar às escuras. “Bolas…”, pensou, “só me faltava uma lâmpada fundida”. Remexeu às cegas na mala e tirou de lá um pequeno isqueiro. Acendendo-o, dirigiu-se para a cozinha, na esperança de ter alguma lâmpada e reserva na despensa. Ia precisamente a passar à frente do telefone quando este começou a tocar. Rute pegou no auscultador e com uma voz amável atendeu; “Estou? Sim? Quem é? Está aí alguém? Quem fala”. Nada. Do outro lado nada mais se ouvia que uma respiração ofegante e um sussurrar quase imperceptível.
A chuva corria pelas janelas abaixo e Rute, pálida como se de um boneco de cera se tratasse, continuava agarrada ao telefone, gritando com o interlocutor fantasma, provavelmente algum tarado, que continuava a não deixar ouvir a sua voz. Rute tremia e suava ao mesmo tempo, colada ao telefone, se sequer se lembrar que podia desligar. Do outro lado soou um gemido, seguido de silêncio.
Não saberia dizer quanto tempo esteve ainda estática com o auscultador do telefone na mão. Quando finalmente tomou consciência de si, voltou a pegar no isqueiro e iluminou o relógio que trazia no pulso. Os dois ponteiro encontrava-se sobrepostos, mais ou menos no número 11. “Livra, quase onze horas… meu Deus, que figura”, pensou, enquanto pousava o auscultador no descanso do telefone. Esquecendo o isqueiro, encaminhou-se, ás cegas para a cozinha, concluindo que a lâmpada podia muito bem ser substituída no dia seguinte. Sentia fome… e sono.
Ao abrir a porta da cozinha, Rute solta um estridente grito, perante a presença de um homem, ainda jovem, vestido de cores escuras, sentado de pernas cruzadas e ar impaciente, com se já a esperasse há muito tempo.
- Rute… há quanto tempo….
- Q… quem é… é v… você? Que faz aqui? Com é que entrou?!
- Não sabes quem sou? E ainda há pouco tivemos uma conversa tão agradável – apontou para um pequeno telefone celular que estava sobre a mesa.
- Como entrou? QUEM É VOCÊ?!
– Não te lembras de mim ‘mor? Aquela grande besta que odiavas? Só por gostar de ti quanto eu gostava…
- Não! Não pode ser… não podes ser… Carlos? Não! Ele morreu… suicidou-se há três anos. Eu estava lá. Eu vi! Atirou-se da falésia, o corpo nunca foi encontrado… mas havia sangue por todo o lado… ninguém podia sobreviver a uma queda daquelas. É impossível!
- É verdade, linda, viste-me ir até à borda dos rochedos e voltaste as costas. Atirei-me… lá fiquei no fundo a sofrer e esperar que a morte viesse. Nem quiseste saber se eu tinha sobrevivido ou não… simplesmente partiste… cabra!
- Não… não pode ser… era demasiado alto para que alguém pudesse sobreviver.
- Talvez um comum mortal. Descobri, aí que não o sou. Ou então, nessa altura houve qualquer coisa que aconteceu… O meu corpo não apareceu, dizesbem. Podes vê-lo agora, podes até senti-lo. – dizendo estas palavras agarrou a mão dela comas suas próprias mãos. Estavam frias, gélidas como metal.
– Estás morto! Que queres de mim?
– Na verdade nem sei se alguma vez vivi… O que quero? O que achas que quero? Quero descansar. Não aguento habitar esta fronteira entre o mundo do que existe e o mundo do que deve existir.
- E o que é que eu tenho a ver com isso?
- Só o posso fazer quando a dor que me levou à… morte for apagada, sé é que meentendes.
– Não, não entendo – Rute estava visivelmente assustada.
– A tua culpa tem que ser dissolvida, tem que desaparecer.
- E como faço isso?
- Tenta descobrir…
- Já sei. Amanhã de manha, assim que sair de casa, procuro um padre e confesso-me. Ele irá absolver-me.
- NÃO! Isso são apenas mitos! Invenções para tranquilizar mentes fracas! Só há uma forma de eliminar um erro.
- C… como?
- Eliminado quem o cometeu… só dessa forma é que a culpa se apaga.
- Não, deixa-me, desaparece, vai-te embora, é mentira! – as palavras de Rute saiam por entre lágrimas abundantes e convulsivas.
- Não posso. Não tens o direito de me condenar ao limbo.
- Ave Maria, cheia de graça…
- Hahahahaha, estúpida, pensas que é isso que te vai salvar?
- … o senhor é convosco…
– Deixo-te… por agora… reflecte… já sabes que vou voltar.
- … Bendita sois Vós, entre as mulheres…
- Adeus, pedra preciosa…
Amanheceu. Rute, no chão da cozinha, acordou sobressaltada e enregelada. Doía-lhe fortemente a cabeça e sentia-se tonta. “Carlos?!”, a sua mente obscurecei-se, “que… será que foi um pesadelo?”. Nada havia naquela cozinha que pudesse confirmar a visita da noite passada. Mas Rute sentiu o pulso, gelado como a água dum ribeiro. “Esteve cá”, disse em voz baixa, “não… isto é psicológico. Eu é que devo estar a ficar maluca… preciso de descansar… umas férias… foi o cansaço, de certeza…”. Olhou para o relógio de parede e ou ponteiros marcavam 10:30. Teve consciência que estava atrasadíssima. Por outro lado não lhe apetecia minimamente ir trabalhar. Dirigiu-se para a sala, sentou-se no sofá e fechou, lentamente, os olhos. Na sua mente começaram a correr as imagens do que acontecera naquela noite de verão, três anos antes.
14 de Agosto de 1994
Todos os jovens gostam de fazer festas ao ar livre, e este grupo de recém saídos da universidade não era excepção. Motivos não eram necessários e foi assim que decidiram encaminhar-se para a beira-mar, para a zona das falésias, devidamente acompanhados de bastantes latas de cervejas, garrafas de vinho, alguma comida, assim como alguns cigarros e afins. A noite estava quente e, talvez por força da Mãe Natureza, começaram a formar-se pares que dançavam ao som de umas quantas guitarras, também imprescindíveis para qualquer festa deste género.
– Rute… – chamou Carlos.
– Diz.
– Bem…
– Que foi? Estás com uma cara…
– Amo-te…
– O quê?! – Rute, apesar de surpresa, e apesar de Carlos não lhe ser indiferente, achou por bem não entrar no jogo. Ele era ainda um pouco imaturo.
– Isso mesmo, amo-te… pronto, já disse! – Carlos pareceu aliviado, como se tivesse tirado um grande peso das costas.
– Carlos… não pode ser.
– Porquê?
– Não pode ser, somos demasiado diferentes… não ia dar certo.
– Mas…
– Gosto muito de ti… como um amigo muito especial… mais não te posso dar.
– Podias, ao menos, tentar… dar uma oportunidade…
– Isso era pior. Acabávamos por nos magoar os dois.
– Não. Eu faria tudo para que isso não acontecesse.
– Não insistas.
– Por favor…
– Já chega!
– Amo-te!
– Desaparece. – Rute estava a começar a ficar verdadeiramente incomodada com a insistência de Carlos. A sua paciência estava a chegar ao limite.
– A sério…
– Não me chateies! Odeio-te! Nunca seria capaz de andar com alguém como tu! Besta! Não me apareças à frente!
Carlos ficou tomado de um imenso desespero. Agarrou Rute pelo braço e arrastou-a com ele até à beira da falésia onde se encontravam. Suava e chorava ao mesmo tempo e a sua respiração estava extremamente irregular.
– És tu que me obrigas… eu não queria… e apesar de tudo, amo-te.
Rute sentiu-se empurrada para trás e estatelou-se no chão. Quando ergueu a cabeça Carlos já ali não estava. Nunca mais iria estar. Chorou, enquanto os amigos se aproximavam e a tentavam consolar.
18 de Novembro de 1997
O telefone começou a tocar, de repente. Rute levantou-se assustada. Tinha adormecido. Olhou para o majestoso relógio de pêndulo, iluminado pelas luzes da rua que entravam pelos vidros da janela. Marcava 21:25. Já não chovia, embora o vento ainda fosse suficientemente forte para levar consigo alguns corpos mais leves. O telefone continuava a tocar. Rute ainda olhou para o aparelho durante algum tempo até que decidiu sair. O telefone continuou a tocar. Rute entrou no carro e meteu a chave na ignição. Respirou fundo. Arrancou, deixando atrás de si uma nuvem de gases tóxicos misturados com folhas secas e pontas de cigarros.
Conduziu por um tempo que lhe pareceu interminável. Perdeu mesmo a noção do tempo. Lembrou-se, de repente, da existência de um pequeno relógio electrónico no painel de instrumentos do seu carro. Olhou para lá e constatou que era já meia-noite. “Ando eu aqui às voltas…”, pensou.
Minutos mais tarde parou. Tomou consciência de que nunca olhara para a estrada enquanto conduzira. Levantou os olhos e foi sem qualquer espanto que reconheceu o local onde tinha chegado… a falésia.
– Provaste o teu amor da pior maneira… se tivesses sabido esperar… – a partir daqui a mente de Rute turvou-se de tal maneira que não lhe foi possível mais nenhum pensamento.
Uma única obsessão começou a tomar forma e a inundar os seu neurónios. Chorou. Gemeu. Gritou. Quando finalmente o seu pé direito carregou no pedal do acelerador a sua consciência não passava de uma amálgama de ecos de gritos e dores nunca sentidas. O carro dirigiu-se, velozmente para o topo da falésia.
Não muito longe, um vulto escuro passeava tranquilamente por estre as rochas e as ondas.
Portalegre, 01/Maio/1998
Castelo de Vide, 15/Fevereiro/2001
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Asfalto
Publicado por GFilipeB em 27/Abril/2008
Estradas há-as em todo o lado. E em todo o lado há sempre alguém para as percorrer. Umas vezes com pressa, outras vezes com calma. Umas vezes com um objectivo, outras nem por isso. Por vezes pode ser só um modo de fazer passar o tempo, esquecer o mundo que fica para trás nas janelas, apenas com a companhia de qualquer devaneio sonoro feito à medida dos nosso ouvidos.
Ao sol, ao vento, à chuva, com nevoeiro intenso e impenetrável… está lá sempre à nossa espera. Quer nós lá passemos, quer não. E aí vai continuar… e durar bem mais tempo que nós.
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A ver a chuva à janela
Publicado por GFilipeB em 26/Abril/2008
Chove, mais uma vez (talvez nunca tenha parado). Talvez seja realmente chuva, talvez sejam lágrimas… talvez o vento que sopra seja um grito silêncioso, uma tentativa de aliviar uma qualquer dor invisível.
Talvez, mais ao longe, no mar, grandes ondas fustiguem furiosamente os rochedos e as areias, apagando o rasto de solitários passos lá deixados… como se de memórias esquecidas se tratassem… e talvez seja suposto ser assim.
Que fazemos aqui? O que é suposto fazermos? Quais são as instruções para a vida? Quem as dá? Qual o objectivo? Se alguém souber, se alguém ousar pensar que sabe, por favor responda.
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Vestígio
Publicado por GFilipeB em 23/Abril/2008
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Tempestade
Publicado por GFilipeB em 22/Abril/2008
Era uma noite chuvosa de Janeiro. O vento assobiava, parecendo até um gemido doloroso. À lareira, em amena conversa, encontrava-se uma família, em tudo igual às outras. Falavam e riam, quase sem notar que, lá fora, o céu desabava em verdadeiras torrentes, frias e cortantes para qualquer infeliz que não houvesse encontrado um abrigo.
Era já tarde, mais ou menos meia-noite, quando um enorme clarão branco ofuscou a vista de todos quantos estavam naquela sala. Todas as luzes se apagaram e até a própria lareira, em poucos segundos, se extinguiu, provavelmente por causa da água que abundantemente escorria pela chaminé abaixo.
Poucos segundos passaram até as luzes voltarem a brilhar… mas aquilo que iluminavam era agora bem diferente do cenário para onde, momentos antes, incidiam. Apenas o elemento mais novo da família, um rapazinho de cinco anos, mostrava sinais de vida, chorando convulsivamente sobre os corpos, inacreditavelmente já frios, dos seus pais e da sua irmã. Chorava sem compreender o que se passara e a sua infantil mente nenhum pensamento tomava corpo a não ser uma confusa mistura de medo, confusão e surpresa, perante aqueles corpos, tão pálidos que pareciam já há muito desprovidos de qualquer função vital.
Passaram-se muitos segundos que se tornaram minutos, formando uma incontável série de horas e o rapazinho parecia não conseguir descolar-se do chão, onde, prostrado, ainda chorava, mas já sem força para verter lágrimas. Ouviu um ruído. Um ruído tão ténue que só foi possível ouvi-lo por causa do silêncio cortante onde estava mergulhado. Sentiu curiosidade… O que seria? Levantou-se do chão e, lentamente, dirigiu-se para a porta da sala que se encontrava fechada. O Sol começava a brilhar através do tecido das cortinas. Nem reparou. A curiosidade era mais forte que qualquer outra coisa. Pé ante pé, encaminhou-se até ao extremo da sala onde se encontrava a porta sem dela desviar o olhar por um momento que fosse. Ouviu a maçaneta a rodar, viu-a mesmo rodar. Fosse que fosse que estivesse do outro lado preparava-se para entrar. A criança correu então para a porta na esperança de encontrar quem lhe pudesse valer na situação em que se encontrava. Pareceu-lhe a mais longa e cansativa corrida da sua, ainda curta, vida. A porta parecia afastar-se cada vez mais.
Com um estrondo ensurdecedor, abriu-se então a porta, embatendo violentamente contra uma frágil cristaleira, o orgulho da mãe, fazendo voar estilhaços em todas as direcções possíveis. Dentro daquela abertura rectangular aparecia, entretanto e lentamente, a mais hedionda e nojenta criatura que só a mais demente imaginação poderia conceber… nem palavras haveriam para descrever semelhante aberração, ou fosse lá o que fosse. Mais assustado que nunca, o rapaz tentou gritar. Não encontrou a voz. Tentou fugir. Os pés recusaram mover-se. A criatura, estendendo uma incontável série de braços viscosos, agarrou lentamente, quase de uma forma maternal. Levantou-o do chão. No que devia ser o seu rosto, ou focinho ou sabe-se lá o quê, uma abertura começou a alastrar de forma assustadora. A boca! Procurava alimento!
– Pedro. Pedro, acorda…
– Mãe?!… O monstro! O MONSTRO!!!
– Calma, não foi nada… apenas um sonho mau, um pesadelo.
– Estava aqui, era de verdade. Ia comer-me!
– Já passou, tem calma. Às vezes quando dormimos, vemos coisas. São os sonhos. Às vezes são bons outras vezes são maus. Mas, bons ou maus, os sonhos não acontecem de verdade
– Mas tive tanto medo, mãe. Tanto…
Não teve tempo de terminar. Viu um imenso clarão branco e, quando este passou, não viu mais nada. Todas as luzes estavam apagadas. Ainda antes de voltarem a acender já as lágrimas corriam incessantemente pelo seu pequeno rosto.
Portalegre, 29/Abril/1998
Castelo de Vide, 14/Fevereiro/2001
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