O que me vai na cabeça

Arquivos para Abril 22nd, 2008

Tempestade

Publicado por GFilipeB em 22/Abril/2008

     Era uma noite chuvosa de Janeiro. O vento assobiava, parecendo até um gemido doloroso. À lareira, em amena conversa, encontrava-se uma família, em tudo igual às outras. Falavam e riam, quase sem notar que, lá fora, o céu desabava em verdadeiras torrentes, frias e cortantes para qualquer infeliz que não houvesse encontrado um abrigo. 
     Era já tarde, mais ou menos meia-noite, quando um enorme clarão branco ofuscou a vista de todos  quantos estavam naquela sala. Todas as luzes se apagaram e até a própria lareira, em poucos segundos, se extinguiu, provavelmente por causa da água que abundantemente escorria pela chaminé abaixo. 
     Poucos segundos passaram até as luzes voltarem a brilhar… mas aquilo que iluminavam era agora bem diferente do cenário para onde, momentos antes, incidiam. Apenas o elemento mais novo da família, um rapazinho de cinco anos, mostrava sinais de vida, chorando convulsivamente sobre os corpos, inacreditavelmente já frios, dos seus pais e da sua irmã. Chorava sem compreender o que se passara e a sua infantil mente nenhum pensamento tomava corpo a não ser uma confusa mistura de medo, confusão e surpresa, perante aqueles corpos, tão pálidos que pareciam já há muito desprovidos de qualquer função vital. 
     Passaram-se muitos segundos que se tornaram minutos, formando uma incontável série de horas e o rapazinho parecia não conseguir descolar-se do chão, onde, prostrado, ainda chorava, mas já sem força para verter lágrimas. Ouviu um ruído. Um ruído tão ténue que só foi possível ouvi-lo por causa do silêncio cortante onde estava mergulhado. Sentiu curiosidade… O que seria? Levantou-se do chão e, lentamente, dirigiu-se para a porta da sala que se encontrava fechada. O Sol começava a brilhar através do tecido das cortinas. Nem reparou. A curiosidade era mais forte que qualquer outra coisa. Pé ante pé, encaminhou-se até ao extremo da sala onde se encontrava a porta sem dela desviar o olhar por um momento que fosse. Ouviu a maçaneta a rodar, viu-a mesmo rodar. Fosse que fosse que estivesse do outro lado preparava-se para entrar. A criança correu então para a porta na esperança de encontrar quem lhe pudesse valer na situação em que se encontrava. Pareceu-lhe a mais longa e cansativa corrida da sua, ainda curta, vida. A porta parecia afastar-se cada vez mais. 
     Com um estrondo ensurdecedor, abriu-se então a porta, embatendo violentamente contra uma frágil cristaleira, o orgulho da mãe, fazendo voar estilhaços em todas as direcções possíveis. Dentro daquela abertura rectangular aparecia, entretanto e lentamente, a mais hedionda e nojenta criatura que só a mais demente imaginação poderia conceber… nem palavras haveriam para descrever semelhante aberração, ou fosse lá o que fosse. Mais assustado que nunca, o rapaz tentou gritar. Não encontrou a voz. Tentou fugir. Os pés recusaram mover-se. A criatura, estendendo uma incontável série de braços viscosos, agarrou lentamente, quase de uma forma maternal. Levantou-o do chão. No que devia ser o seu rosto, ou focinho ou sabe-se lá o quê, uma abertura começou a alastrar de forma assustadora. A boca! Procurava alimento! 
   – Pedro. Pedro, acorda… 
   – Mãe?!… O monstro! O MONSTRO!!! 
   – Calma, não foi nada… apenas um sonho mau, um pesadelo. 
   – Estava aqui, era de verdade. Ia comer-me! 
   – Já passou, tem calma. Às vezes quando dormimos, vemos coisas. São os sonhos. Às vezes são bons outras vezes são maus. Mas, bons ou maus, os sonhos não acontecem de verdade 
   – Mas tive tanto medo, mãe. Tanto… 
     Não teve tempo de terminar. Viu um imenso clarão branco e, quando este passou, não viu mais nada. Todas as luzes estavam apagadas. Ainda antes de voltarem a acender já as lágrimas corriam incessantemente pelo seu pequeno rosto.

Portalegre, 29/Abril/1998
Castelo de Vide, 14/Fevereiro/2001

 

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Equilíbrio

Publicado por GFilipeB em 22/Abril/2008

Equilibrio

Encontra-se.. às vezes mantém-se. Às vezes perdemo-lo.

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