Deriva

Barco (navio?)
Sem quilha, sem casco, sem mastros
Corpo flutuante, igual à sua carga 
(que é nada, ao fim ao cabo)

Que é de um porto para atracar?
De um fundo onde ancorar?
(com que cabos? Que correntes?)
(E… âncora, que é de uma?)

Voga nas ondas, voga
Não tens cais para chegar
Pois de nenhum outro saíste
(se é que existes, só no mar existes)
(e foi no meio dele que apareceste)

Voga, barco (navio?… jangada?…)
Nas águas onde a superfície e o fundo
São o mesmo
Voga

 

(Ponta Delgada, 15 de Julho de 2017)

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Coro das múmias

Embrulhados em tiras de linho
Fomos gente (agora não mais)
Carne seca, corroída
Há milénios já sem vida
Em caixotes de ouro, e não só,
Fechados.
Em buracos, debaixo do chão
Encerrados.
A poder ser qualquer memória,
Qualquer lembrança, história;
Mas não!…
Sem miolos, coração,
Sem entranhas, miudezas,
Apenas (só) carcaças
Sob as areias, presas.
De óleos nos banharam,
Comida nos deixaram,
E tesouros…
Inúteis metais,
Vãs ofertas que, em vida,
Não nos fizeram…
Mas agora aqui estão,
E não servem para nada!
Vivos fomos, mortos estamos;
Ainda assim, de nós dois ou três
(Ou pouco mais)
Pensam ainda que pensam
Julgam-se vivos;
E às vezes, só às vezes,
Conseguem enganar quem ainda
Tem um corpo (com tudo
O que lhe pertence…
Até cérebro!)
E as múmias… somos nós?!

 

(Ponta Delgada, 15 de Junho de 2016)

Fósforo

Não!…
Sabes bem.
Não és nada
Sabes que não és nada
(Ou quase nada…
Por pouco que seja
Sempre tens peso
E ocupas espaço…
Ínfimo, enfim,
No tamanho do Universo)
Nada!
Nada…

No meio da multidão
Onde às vezes te encontras
Estás só

Em vez de rostos
Só costas

Nada de vozes
(Para ti, pelo menos)
As únicas que ouves
São eco da tua própria;
Breve e sem quase nada

Invisível
(Um fantasma?)
Talvez só uma sombra
Ao canto de olhares alheios
E mais nada
(Ou quase nada)

Às vezes existes
Por pouco tempo, porém…
Tens rosto e voz
Que alguns
(Talvez)
Consigam ver
Consigam ouvir

Existes (pois…)
Mas só como a chama de um fósforo
Só por instantes…

Às vezes, muito às vezes,
Quase nunca,
Depois da chama,
Pode se que alguém
Ainda contemple o fumo
(Ou apenas seja
Ligeira distracção;
Há quem fique
A olhar o vazio…
Sem se aperceber –
Depois (eventualmente)
Acorda)
E continuas a não existir

Podes até pensar
(Imaginar, ponderar)
Que te ignoram por querer
(Maldade ou que mais?…)
Pois se assim fosse
Era sinal que existias

Mas no fundo
Sabes que não
Não existes

Ou talvez vás existindo
Mas apenas e só no tempo
(Naquele mínimo tempo)
Igual àquele tempo
Em que a chama de um fósforo brilha.

 

(Ponta Delgada, 15 de Junho de 2016)